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NO MEIO DO CAMINHO TINHA O DRUMMOND

Carlos Drumont de Andrade

NO MEIO DO CAMINHO TINHA O DRUMMOND

NO MEIO DO CAMINHO TINHA O DRUMMOND

Uma recente postagem do ator Odilon Esteves no Facebook me fez voltar a Carlos Drummond de Andrade. Há alguns anos, li sua obra poética reunida num só volume como quem devora um romance. Não é o caso. Poesia é para se ler aos poucos, indo e voltando, perdendo-se, achando-se, sem pressa ou finalidade. Sorte do ator que a decora – conviverá por mais tempo com a matéria lírica do que aquele que meramente lhe passa os olhos.

Na postagem, Odilon interpreta o poema “O Homem; As Viagens” do livro “As Impurezas do Branco”:

“O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.”
 

O poema segue, belo e preciso, até concluir que:
“só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo”

Dangerosíssima – especiosa palavra roubada do inglês dangerous e do francês dangereuse.

A precisão começa já no título, com os dois elementos – “o homem” e “as viagens” – separados por ponto e vírgula, como se uma vírgula só não fosse suficiente para o hiato que há entre ser e estar. O “homem” como símbolo daquilo que é; “as viagens”, daquilo que está. (É sabido que quando viajamos estamos mais do que somos, retirados do nosso cotidiano, experimentando por um tempo novos hábitos, locais, línguas, pessoas, horários). Chama atenção também o primeiro elemento no singular e o segundo no plural, como se “homem” fôssemos um só; “as viagens”, múltiplas e repetíveis.

Nos anos 80 cruzava com Drummond na rua. Éramos vizinhos de quadra. Próximo ao prédio em que ele morou, na rua Conselheiro Lafaiete, em Copacabana, há um largo com seu nome e, sobre a calçada de pedras portuguesas, o verso tatuado: “Toda história é remorso”.

Adoraria lembrar das vezes em que o vi. Terei seguido o poeta solitário imerso em sua persona pelo labirinto das ruas? Terei tentado um autógrafo? Por timidez deixei passar a oportunidade de dirigir-lhe a palavra, de oferecer-lhe uma rosa do povo, de dividir com ele um sentimento do mundo. Agora, se quero vê-lo, preciso ir até à praia, sentar-me ao lado de sua estátua, e, no mais brando silêncio, decifrar seu claro enigma em meio ao marulho das ondas.

Texto: Rodrigo Murat é escritor

rodrigo murat

Imagem:http://www.elfikurten.com.br

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