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MACHOS VERDES FRITOS

Hulk

MACHOS VERDES FRITOS

Estamos fritos. O macho branco ocidental – só para citar um clichê reducionista porque a questão é complexa e talvez eu não seja a pessoa mais indicada para aprofundá-la; pelo menos não hoje, nesse domingo abafadíssimo de bye, bye verão – precisamos urgentemente sair do personagem e rever o diálogo, sob o risco de engrossarmos o caldo do preconceito e das ideias vencidas de alguns atuais homens públicos.

Do Mamãe, Falei – só esse apelido já é de um infantilismo atroz – e sua infeliz viagem à Ucrânia, muito já foi dito. Vou poupar-nos. Mas como não mencionar o Procurador-Geral da República que, no Dia Internacional da Mulher, foi capaz de declarar, em pronunciamento oficial, que as mulheres foram exitosas nas conquistas a ponto de agora poderem escolher a cor do esmalte e do sapato que vão usar? O que foi isso – piada? Ato falho? Trocadilho?

A verdade é que esse governo liberou seus representantes para que eles digam qualquer estupidez como se fossem petardos de Sêneca, Maquiavel ou Einstein. É a vingança da turma do fundão da sala de aula: aquela que nunca leu uma linha de nada e passa as aulas debochando dos professores, porque, afinal de contas, pensar é uma coisa que cansa, e ser burro pode ser suficiente, desde que os burros se aglutinem e constituam um corpo jurídico com um burro-alfa à frente mascando a alfafa e redistribuindo-a.

Não tiro o meu da reta. Como homem que sou, com minha devida porção de infantilismo boçal adquirido por décadas de convívio em sociedade – ainda que um infantilismo boçal relativizado por outros prismas de pensamento –, quando jovem e cuca fresca, escrevi uma peça teatral que ficou mais de três anos em cartaz, levando, de uma ponta à outra do país, um corolário de piadas bastante grosseiras e sexistas. É a história de três amigos sessentões que se encontram num bar para expor suas intimidades. Assistia ao espetáculo com uma certa vergonha, embora rejubilado pelo fato de me ver invariavelmente cercado por público às gargalhadas.

Volta e meia algum produtor ameaça remontar a peça e eu fico entre a vontade de barrar o projeto e o ímpeto de ganhar dinheiro – afinal, teatro é meu ganha-pão, e se parcela do público gosta do que é oferecido, quem sou eu para dizer não? Eu sou só o autor – e um autor não é muito mais que uma antena captando estímulos dispersos.

Eu só reuni em material o que as pessoas dizem por aí. Por isso elas se identificam e riem. O que eu fiz recentemente foi cortar alguns diálogos que me pareceram inadequados – não só por serem politicamente incorretos, mas por serem dramaturgicamente bobos. (Eu tinha 30 anos quando escrevi a peça, e nessa idade, eu escrevia muita bobagem; perdia a razão, mas não perdia a piada.)

É o que precisamos fazer, o tempo todo: reescrever, reescrever; cortar os diálogos bobos. A vida é um exercício de maturidade.

Diário de Adão e Eva (por Mark Twain)
Segunda – Essa nova criatura de cabelo comprido está se intrometendo demais. Fica sempre rondando e me seguindo. Não gosto disso; não estou acostumado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais… Está nublado hoje, vento leste; acho que vamos ter chuva… Vamos? Nós? De onde eu tirei essa palavra? – Ah, lembrei – a nova criatura costuma usá-la.

Terça – Ela me contou que foi feita de uma costela que tiraram do meu corpo. É algo no mínimo questionável, ou pior. Eu não perdi costela nenhuma…

Sexta – Ela contou que a serpente a aconselhou a provar o fruto da árvore, dizendo que o resultado será uma educação magnífica, refinada e nobre. Eu disse que haveria também outro resultado – iria introduzir a morte no mundo. Aconselhei-a a ficar longe da árvore. Ela não concordou. Estou prevendo problemas. Vou emigrar.

Dez dias mais tarde – Ela me acusa de ser a causa do nosso desastre? Diz, com aparente sinceridade e verdade, que a Serpente lhe garantiu que o fruto proibido não era a maçã, e sim as castanhas. Ela falou que a serpente explicara que “castanha” era um termo figurado, significava uma piada velha e ruim. Fiquei pálido ao ouvir isso, pois havia feito muitas piadas para passar o tempo nas horas de tédio, e algumas delas talvez tivessem sido desse tipo, embora honestamente eu as achasse novas quando as inventei. Gostaria de não ser tão espirituoso; ah, nunca deveria ter tido aquele tipo de pensamento brilhante!


A mencionada peça teatral é “Três Homens Baixos”, ficou em cartaz de 2001 a 2004 com Gracindo Jr., Herson Capri e Jonas Bloch no elenco. Retornou a São Paulo em 2005 com Rogério Cardoso, Flávio Galvão e Orlando Vieira. Uma terceira montagem contou com Francisco Cuoco, Chico Tenreiro e Gracindo Jr. Houve ainda uma quarta temporada em SP com Anselmo Vasconcellos, Walter Breda e Orlando Vieira.

Rodrigo Murat é escritor
Rodrigo Murat
Imagem Pixabay

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