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FIM DE JOGO

Samuel Beckett

FIM DE JOGO

ATO I

HAMM Você se sente normal?
CLOV Eu disse que não me queixo.
HAMM Você não está cheio disso?
CLOV Estou! Do que?
HAMM Desse… dessa… disso.
CLOV Desde sempre. Você não?
“Fim de Jogo”, peça de Samuel Beckett escrita em 1957, foi encenada por Gerald Thomas no ano de 1990. No elenco, Bete Coelho era Hamm; Giulia Gam, Clov; Magali Biff, Nell; Mario César Camargo, Nagg.
Relendo o texto numa tradução portuguesa que encontro num sebo – continuo resistente a pdfs –, volto a me impressionar com a desenvoltura do autor de retratar o ser humano em toda a sua relojoaria de funcionamento a partir de personagens que podem ser uma boca, uma cabeça ou um tronco como nas peças “Eu Não”, “Aquela Vez” e “Oh, Que Belos Dias!”.
CLOV Eu não posso me sentar.
HAMM Eu não posso ficar de pé.
CLOV Exato.
HAMM Cada um com a sua especialidade.
“I can´t go on; I`ll go on” (Samuel Beckett)

ATO II

Na sequência, Gerald escreveu e dirigiu M.O.R.T.E – Movimentos Obsessivos e Redundantes Para Tanta Estética – cujo ponto alto era a cena em que os atores Bete Coelho, Luiz Damasceno, Magali Biff, Edilson Botelho, Malu Pessin, Mario Cesar Camargo, Ludoval Campos, Joaquim Goulart, Kiti Duarte, Cacá Ribeiro e Giulia Gam iam para o proscênio e por lá permaneciam por cinco minutos encarando o público que, incomodado, começava a se mexer, tossir, rir, falar – ainda não havia os smartphones que pudessem servir de válvula de escape.
No programa da peça há um diário dos ensaios feito por Marco Veloso – assistente da dramaturgia:
12 outubro – Gerald anuncia algumas modificações na peça: diz que o palco passa a ser o lado de fora de um teatro. Os atores trazidos para o palco foram arrancados do teatro (coxia), onde as ações tentadas no palco são representadas realmente. Há uma outra peça acontecendo na coxia. Fala que a coxia é a ambição e que no palco todos vivem, além da tentativa de representar o que se passa na coxia, a dor de não conseguirem fazê-lo.
14 outubro – Desde que estreou “Fim de Jogo”, Gerald está com dificuldades para conduzir os ensaios. Ninguém sabe exatamente o que é. Ele age como se fosse uma crise de criação. Insisto no papel determinante da Bete e da razão de sua absorção pelo grupo de atores. Resolver esta equação não é nada fácil. O Zé Celso a formulou mas não conseguiu resolvê-la nos termos específicos do teatro, o que não é uma obrigação para ninguém, mas que ele próprio se coloca.
26 outubro – O Julio Bressane e o Haroldo de Campos estão assistindo ao ensaio.
“You can´t go on; you´ll go on”

ATO III

Há uns anos atrás, conheci Magali Biff num festival de cinema no Piauí. Quando soube que ela estaria presente como atriz do filme “Deserto” dirigido por seu companheiro de teatro Guilherme Weber, pensei:
“Céus, vou conhecer a Nell!”
Bem, a esta altura, ela não era mais apenas o expressivo rosto que saíra do fosso do palco em “Fim de Jogo”, mas também a incrível atriz dos igualmente incríveis espetáculos dirigidos por Felipe Hirsch, como “Avenida Dropsie” e “Educação Sentimental do Vampiro”.
Ao término do festival, na van que nos levou de Floriano ao aeroporto de Teresina – 250km depois – houve tempo suficiente para que os jovens cineastas que haviam participado do evento – a maioria com seus primeiros curtas na bagagem– comentassem sobre a participação de Magali na novela “Chiquititas”, exibida pelo SBT no final dos anos 90. Magali era Ernestina, a divertida vilã do orfanato onde se passava a história. Ernestina, que era chamada de bruxa pelas crianças, tinha uma aranha caranguejeira que, vez por outra, passeava em seu braço. Magali contou que, antes de entrar em cena, conversava com a “colega” no camarim como uma forma de “estabelecer intimidade”. Um dia, a aranha-atriz caiu no chão, morreu, e foi substituída por outra. Com essa, ela jamais conseguiu estabelecer um bom diálogo. Assistindo-a ali, relembrando deste divertido bastidor, Magali Biff continuava sendo, para mim, a doce criatura da peça de Beckett condenada a viver submersa num latão à espera da “próxima bolacha”.
FIM DE JOGO, afastada a cada dia no tempo, é agora uma lembrança enfumaçada que ajuda a atravessar esse longo período de jejum teatral como uma promessa retroativa de luz no fim do túnel.
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Este texto é a terceira e última parte de uma trilogia que pretendeu um sobrevoo sobre o teatro de Gerald Thomas dos anos 80. Aos 67 anos, em meio ao caos da pandemia, o diretor luta para se manter no apartamento em Nova Iorque, e, recentemente, postou um vídeo na internet: “Desta vez não tem piada, trocadilho e opinião. É um apelo. Eu preciso vender meus desenhos, minhas pinturas. A situação chegou a um ponto crítico e não posso mais aguentar. Estou sendo despejado do meu apartamento, depois de realizados 84 trabalhos em 16 países.”
“We can´t go on; we´ll go on”.

Rodrigo Murat é escritor
Rodrigo Murat

Imagem: Samuel Beckett(Reprodução)

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