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CARTA A UMA AMIGA ROTEIRISTA COM LUA EM AQUÁRIO

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CARTA A UMA AMIGA ROTEIRISTA COM LUA EM AQUÁRIO

CARTA A UMA AMIGA ROTEIRISTA COM LUA EM AQUÁRIO

Rio, 31 de maio de 2021

Cara D., segui sua sugestão e dei uma olhada naquela série de TV que recém estreou. Confesso que não consegui ir muito adiante, pois logo no primeiro episódio me apareceram dois pedregulhos intransponíveis, e eu não tive mais ânimo. Pena, você me falou com tanto entusiasmo…

Talvez eu esteja ficando velho e exigente, mas o fato é que hoje em dia quase nenhum roteirista sabe mais o que é uma curva dramática; sabe mais projetar e executar uma linha de ação para que quando ela aconteça esteja suficientemente madura e crível. Tudo prorrompe de uma hora pra outra porque o autor quer e não porque a história pede. Senão, vejamos: na comentada série, um casal apaixonado e que aparece na cama nas cenas 1, 3 e 5 aos beijos e amassos, segue para uma pousada rural na 7; na 8, a jovem convida o namorado para ir à cachoeira e ele diz que precisa ficar no quarto trabalhando; na 9, a jovem conhece no mato um nativo com ares de Peri; na 10, uma funcionária com ares de Ceci vai ao quarto do namorado da jovem e dá em cima dele como se o fato do ator ser bonitinho justifique o resto; na 11, a jovem vê o Peri seminu e, impactada, transa com ele na cachoeira; na 12, o namorado da jovem, igualmente impactado, derruba a Ceci na cama e a trama no chão.

Tudo bem, sabemos que muitas vezes é isso o que acontece na vida, mas ficção não é vida – com todos os seus caminhos truncados. Na ficção é preciso colocar o espectador num carro e fazer com que ele se sinta conduzido a um ponto combinado com ele a priori, senão fica parecendo que o motorista é cego, e que Belo Horizonte e Nova Déli são a mesma coisa e o mesmo destino.

Não sou puritano, mas acho que o sexo na teledramaturgia virou um clichê recorrente. Escala-se um elenco gato e tá tudo certo: todo mundo tem tesão em todo mundo e o público baba. Cena de cama virou um soluço. Duas cenas e uma de cama. Duas cenas e uma de cama. Duas cenas e uma de cama. Estou quase propondo aos fazedores de conteúdo uma obra casta onde ninguém tenha cama, ou então um Sade de luxo, onde todos a tenham e não saiam delas por premissa narrativa. Sexo é ótimo, mas na ficção é preciso que tenha lastro.

Como você bem sabe, sou um egresso da teledramaturgia que se fazia nos anos 70 onde as coisas levavam meses para acontecer. O espectador era cozinhado em banho-maria do capítulo 1 ao 180 até descobrir quem matou fulano, qual o verdadeiro caráter de beltrano e com quem se casou sicrana. Tudo bem que essa fórmula “glória magadânica” ficou datada, mas será possível que agora tenha que ser tudo a toque de caixa como se o mundo fosse acabar no segundo bloco?

Você me acusa de ser excessivamente capricorniano avesso à tecnologias, de ter ainda televisão de bunda (tubo) e de escrever cartas e postá-las no correio. Perdão, não tenho culpa de ter Plutão na casa 8 e Saturno retrógrado impedindo que eu desça a ladeira esburacada da vida na banguela. Também não acredito que uma maneira de ser seja melhor ou pior do que outra. Se eu não fosse assim, seria assado, e isso só me livraria de ser assim, não me eximindo da pecha de ser assado. Cada um colhe seus prós e contras, seus trigos, seus joios, seus tempos vivos e mortos. Na pandemia não aderi ao Zoom nem ao Telegram e cada vez que alguém me chama para um regabofe online com amigos em quadrinhos e cerveja pixelada esquentando no mouse pad sinto-me no direito de dizer NÃO, OBRIGADO em caixa alta. Sim, devo estar ficando velho com ascendente em Chato e Lua em Idoso.

Para seu espanto vintage, terminei de rever “A Sucessora” em DVD. Um primor de novela, com cenários de papelão, diálogos pomposos e metalinguísticos. É mesmo esse o mote da novela: de como somos atores canastrões defendo nossos papéis em sociedade. Agora comprei o “Bem Amado”. Já que estamos com um Odorico Paraguassú nas cabeças caçando cadáveres para inaugurar cemitérios, achei que valia a pena ver de novo. Eu sei que você vai repetir pela enésima vez que a novela está disponível no streaming e que é patético alguém AINDA comprar discos – só loucos obsoletos insistem – mas o que eu posso fazer? Talvez eu não tenha saído da fase oval e Freud desça à Terra para me condenar ao divã perpétuo. Mas é importante gostar do que gostamos, senão a vida vira uma equação difícil, para não dizer esquizofrênica.

Em nosso último telefonema fixo você me disse que essa minha obstinação em querer fazer sucesso depois dos cinquenta e de me casar aos sessenta me faz perder um tempo precioso e adiar para amanhã o que eu poderia carpir hoje, mas quem sabe não é exatamente isso que está me garantindo uma vaga no futuro e uma vida longeva, além do guaraná em pó e do própolis?

Bem, está na hora da minha aula presencial de Esperanto. A professora está vindo de tílburi, e eu preciso ver se tenho réis suficientes no criado-mudo para pagá-la. Como você sabe, não tenho pix. Espero que sua lua em Aquário saiba me absolver do fato de eu não ter gostado da série da qual você me falou com tanto entusiasmo taurino…

De seu amigo augusto, analógico e anacrônico,
Um beijinho técnico.
R.

P.S. Você tem ideia se a Damares se inspirou nas Irmãs Cajazeiras?

Texto: Rodrigo Murat é escritor

rodrigo murat

Imagem de Elf-Moondance por Pixabay

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