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A INOCÊNCIA DA MALDADE

Inocência

A INOCÊNCIA DA MALDADE

Bom dia, Martha.

Li sua crônica dominical de domingo – é redundante, eu sei, mas “dominical” não te parece um jeito de ser, um adjetivo, um aspecto?  – e percebo que ainda divulgas, como um “lábaro estrelado”, seu endereço de e-mail no alto da página para que seus eleitores escrevam. Na crônica em questão, você trata justamente de um leitor assíduo que te escreveu questionando sua opção de voto para 2022. Você rebate com bastante urbanidade – como é do seu feitio elegante – e reúne argumentos bem embasados para defender sua tese – com a qual concordo amplamente.

Fico imaginando os volteios sinápticos que os seguidores fieis do atual governo não são obrigados a fazer para manter-se adaptados ao MITO. MITOS costumam ser bastante fixos – por isso, mitos – mas no caso em questão a mudança de perspectiva parece ser a tônica. Agora mesmo, fui à rua e vi na banca o vi o MITO na capa de uma revista dizendo confiar cegamente na urna eletrônica. Oi? Até anteontem atrás ele não tinha provas cabais do contrário? O que seria em tese uma vantagem – mudar de opinião não deixa de ser um indício de maturidade – soa a mimetismo como método repetido de sobrevivência. Não será surpresa se semana que vem ele levantar a hipótese de que índios talvez não existam, ou de que a Lua é oblonga e que, em especial a vermelha, com a foice no lugar do São Jorge, é coisa de comunista.

“Comunista”, aliás, e “Pedófilo”, por extensão, viraram xingamentos coringas, usados em qualquer situação quando se está com raiva do oponente e não se sabe que pedra atirar. Na dúvida, vá de pontiagudas, que causam barulho nas redes e suscitam as olas nos estádios virtuais do ódio.

Bem, um governo que institucionaliza o ódio como fulcro central de ação a ponto de batizar um de seus departamentos de GDO – “Gabinete do Ódio” num tratamento carinhoso como quem chama um totó de Fifi – mostra o quanto de reservas de rancor jaziam adormecidas nos bilhões de eretores que votaram em 2018. Uma vontade distópica de corrigir o mundo a pedra e bala, como se o mundo fosse corrigível de algum modo e coubesse nas medidas do que se quer. Eu mesmo tenho um conhecido que veio com essa patacoada: vou votar na Direita porque a Esquerda não deu certo. O sujeito conseguiu resumir em trezentos e dezesseis caracteres uma situação complexíssima, como se o mundo fosse rosa e azul, e de uma frase pirlimpimpim pudesse catapultar-se magicamente a solução do problema. Essa gente não deve ter ouvido falar do clássico brega “Cinquenta Tons de Cinza”, ou, pelo menos, o inspirado título não serviu para atualizá-los de que a realidade também tem seus cinquenta – para não dizer seus quinhentos meios-tons de tudo.

Talvez cada um de nós seja uma realidade (in)fundada. Mas a maioria prefere acreditar que está certa no que pensa, e que a solução dos problemas cabe no metro quadrado de sua caixa craniana.

Num almoço em família, em dezembro de 2019, um membro perguntou a outro – ambos antipetistas ferrenhos, e só nessa definição já se vão milhares de reducionismos pra vida poder caber numa frase – o que ele achava das ondas de suspeitas que vinham se levantando contra o Flávio –1 – o filho mais velho do 0 – e ele defendeu-o! Ora uai, então quando é o “inimigo” que é acusado de roubo vale, mas quando é o primogênito do eleito do peito, não?

Fico tentando entender como funciona a cabeça de quem defende seu candidato com unhas e dentes e fico achando que é como apostar num cavalo de corrida. O cara põe suas fichas no Pégaso Negro e não quer que nada disturba seu desempenho. “Se eu apostei, é porque ele vai ganhar e o resto é obstáculo espalhado no caminho”.

Nunca fui petista – menos pelo partido em si e mais porque sou meio inapto para ver o mundo por uma mirada política e tomar partido de partido – mas votei no Lula em eleições pretéritas porque, mito por mito, é o que mais se aproxima da realidade fantasiada na qual eu acredito. Mas quando começaram a surgir as denúncias do mensalão, por que eu iria defendê-lo? Eu estava lá, nos bastidores, para garantir que era mentira? E aí vêm os que antes o acusavam, agora garantir que é?

É claro que há os bolsorolas arrependidos, o que é praticamente um oxímoro – mas isso já é outro e-mail.

Desculpe pela extensão deste. Nem sei se conseguir colocar todas as ideias de pé, até porque na minha cabeça elas estão de lado, e é sempre preciso fazer esse esforço de adaptação. O título do e-mail OS BOLSOROLAS é porque: primeiro, BOLSOMINIONS já está muito batido, e eu nem nunca gostei muito, não acho que pareça o que quer significar, me soa a algo fofo ou inocente, e, se essa turma tem alguma inocência, é a inocência da maldade; segundo, porque eles mudam tanto de pele – sem mudar de cerne – que talvez seja preciso chamá-los de outra coisa. Pensei em BOLSOROLAS não para fazer trocadilho com o tema no qual eles parecem fixados – vide a mamadeira de pi* que eles adoram tanto badalar aos quatro ventos –, mas para remeter ao chip de uma conhecida marca de smartphones. Pois acho que é isso que estamos meio virando: aparelhos.

Boa semana.

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Já que falei em inocentes, sinalizo que minha peça “A Noite dos Inocentes” estreia neste sábado, dia 2 de outubro, no teatro West Plaza, às 19h. Vai ser bom estar em cartaz em SP, com gente de carne e osso falando pra gente de osso e carne como num jogo de espelho.

Rodrigo Murat é escritor
Rodrigo Murat

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