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TODES ESTÃO SURDES ​

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TODES ESTÃO SURDES ​

A Secretaria Estadual de Cultura publicou no Diário Oficial uma portaria proibindo a utilização de linguagem neutra nos projetos culturais que solicitam financiamento por meio da Lei de Incentivo – a malfadada Rouanet, que tantos odeiam sem saber direito o que é. Fazendo coro ao presidente – que tem sérios problemas com o assunto –, o Sectário (sic) da pasta criticou em suas redes antissociais o uso da palavra “todes”, recentemente encampada pelo Museu da Língua Portuguesa. Chefe e subordinado reiteram-se na platitude de que a linguagem não-binária nada mais é que aparelhamento ideológico. Eles podem aparelhar; quem pensa diferente, não. ​

É interessante observar como funciona a mente de dezessete sinapses dos reacionários. Recentemente, um jogador de vôlei foi afastado da Seleção Brasileira por fazer comentário rançoso acerca do anúncio de que o novo Super-Homem, filho de Clark Kent, é bissexual. A peça publicitária da DC Comics vinha ilustrada por um beijo gay. O atleta postou: “É só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar.”

Não sei a idade biológica do indivíduo, mas mentalmente acredito que ele não passe de doze. Porque achar que desejo é matéria ensinável é não entender nada do ser humano, é ter faltado a todas as aulas da Vida. Ou ele tem suspiros represados que o advertem de que se ele for exposto a conteúdo gay poderá perder o controle de sua aferrada heterossexualidade, ou não tem libido alguma e, portanto, não entende como funciona a máquina do tesão. Quer dizer que se crianças forem expostas a imagens de berinjelas e de miosótis se acariciando desenvolverão apetite sexual por cascas e pétalas? Cientistas poderiam desenvolver pesquisa sobre o tema – se é que já não o fizeram.

Por outro lado, acho pouco eficiente esse slogan “Homofobia Não É Opinião”. Quem tem problemas com o assunto vai se sentir no direito de reforçar a tal da “liberdade de impressão”, e reafirmar que o que pensa é, sim, opinião, ora bolas. Então o cidadão com direito constitucional de ir-e-vir não pode levar-e-trazer o pensamento que quiser? Dois pesos, duas medidas? É claro que estamos todes de sace cheie de ter de lidar com essa turma que acha que o mundo tem de coincidir com o que eles acham certo ou errado, mas não conseguiremos nos livrar dela varrendo-a para debaixo do tapete ou expulsando-a de classe. Talvez “Homobofia É Crime” seja um lema mais assertivo que fique acima desse conceito subjetivo de “opinião”. Afinal, se eu me arvoro ao direito de dizer que o que o outro pensa não é opinião, o outro rosnará igual e ninguém irá a lugar nenhum.

A verdade é que falta Humor a essa gente. Falta Poesia, Filosofia e Senso de Relatividade onde sobram certezas absolutas, culpas e moral de cartilha. Sejamos mais ridículos – no melhor sentido do termo – e deixemos que os outros também o sejam.
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“Desde o começo do mundo/Que o homem sonha com a paz/Ela está dentro dele/Ele tem a paz e não sabe/É só fechar os olhos e olhar pra dentro de si/Tanta gente se esqueceu/Que a verdade não mudou/Quando a paz foi ensinada/Pouca gente escutou/Meu Amigo volte logo/Venha ensinar meu povo/O amor é importante/Vem dizer tudo de novo/Outro dia, um cabeludo falou/Não importam os motivos da guerra/A paz ainda é mais importante que eles/Esta frase vive nos cabelos encaracolados das cucas maravilhosas/Mas se perdeu no labirinto dos pensamentos poluídos pela falta de amor/Muita gente não ouviu porque não quis ouvir/Eles estão surdos.”
(“Todos estão surdos”, Roberto e Erasmo)

Rodrigo Murat é escritor.
Rodrigo Murat

Imagem de Mote Oo Education por Pixabay

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