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QUANDO A VIDA ERA EM PRETO E BRANCO

Selva de Pedra

QUANDO A VIDA ERA EM PRETO E BRANCO

Estou revendo em DVD a primeira versão da novela “Selva de Pedra” de 1972. Oi? Então todo mundo maratonando no streaming aquela série maravilhosa francesa ou americana sobre a dinastia merovíngia ou sobre donas de casa que se quadrilham para exterminar um serial killer com um chifre de unicórnio e eu parado no tempo como um anacoreta? Pois é: zona de conforto é zona de conforto, e a nossa, muitas vezes, encontra-se no passado.

De 1970 a 1983 – de “Irmãos Coragem” a “Guerra dos Sexos” – o meu foi na frente da TV devorando toda a teledramaturgia produzida pela Rede Globo. Eu não só consumia tudo, como datilografava na minha Remington azul claudicante os capítulos finais das tramas que estavam no ar. Por essa época, eu tinha dois grandes medos: de como seria quando eu crescesse e não tivesse mais tempo de me dedicar ao meu hobby predileto, e de que as novelas se esgotassem antes que eu tivesse conseguido me tornar autor de uma.

As novelas dos anos 70 eram incríveis. Os escritores, em sua maioria, eram oriundos do teatro: Jorge Andrade, Bráulio Pedroso, Dias Gomes, Lauro César Muniz. Janete Clair veio do rádio; Gilberto Braga, do jornal; Manoel Carlos e Cassiano Gabus Mendes, do pioneirismo da Tupi. Todos dramaturgos de ponta, criadores de tramas ótimas. Só para ficarmos com duas: “O Rebu”, de Bráulio Pedroso, tinha sua ação centrada numa festa onde um assassinato acontecia – só que não se sabia quem matava, quem morria, e a história não era contada de forma linear. Ia e vinha no tempo, como peças de um quebra-cabeça que ia se fazendo. “O Grito”, de Jorge Andrade, se passava num prédio onde os condôminos se reuniam para expulsar um vizinho doente que gritava. Ambas contavam com atores de primeira linha: Lima Duarte, Yara Côrtes, Isabel Ribeiro, José Lewgoy, Bete Mendes, Ziembinski, Arlete Salles, Leonardo Vilar, Glória Menezes, Ney Latorraca, Yoná Magalhães, Rodrigo Santiago, Tereza Rachel, Ruth de Souza, Walmor Chagas. Não existia ainda o ator-celebridade, lambe-lambe de si próprio – Giovana Antonelli, Cauã Reymond, Grazi Massafera etc.

Até metade da década, as novelas eram em preto-e-branco – as primeiras em cor de cada horário foram: “O Bem-Amado”, “Pecado Capital”, “Senhora” e “Locomotivas”. Os cenários pareciam feitos de papelão, e quando um ator abria ou fechava uma porta, a casa balançava. As tramas eram exageradas, rocambolescas, redundantes, com direito a muita “barriga” – as histórias esticadas ao máximo até a solução dos últimos capítulos. A trilha ajudava a contar o enredo. Os personagens centrais tinham suas músicas-tema, e, em geral, elas apareciam na versão original cantada e numa variante instrumental. Poucos personagens, uma espinha dorsal, duas ou três tramas paralelas, uma penca de canções assoviáveis e estava dada a receita.

​Hoje as novelas viraram filmes de ação com muito tiro, porrada & sexo naquela fórmula marqueteira de agarrar o espectador pelo cangote para que ele não respire e não troque de canal. Nada pode demorar a acontecer: a mocinha conhece o galã na cena sete, na dezoito está grávida; o vilão é prejudicado na quatro, na dez já pôs em prática seu plano de vingança. Não existe mais curva dramática, só atalhos para se chegar bem rápido ao cerne da coisa nenhuma. As cenas são como desenvolvimento das escaletas – aquele roteiro em tópicos que a equipe de autores faz com o briefing do que é preciso depois transformar em ação dramática. Tudo isso imantado por um filtro de luz azulado e música de todo tipo como numa juke box. Outro dia, em meia hora de capítulo, foi possível ouvir Ângela Maria, Beethoven, Raul Seixas, Radiohead. Não é preciso zapear. O próprio produto já se zapeia por dentro, deixando tudo aos cacos, aos fragmentos, para o espectador anestesiado.

Novela hoje tem que ter bandido, delegacia, hospital, muita garota ou garoto de programa para seduzir metade do elenco – haja Teorema para tão pouco Pasolini! – e núcleo cômico estereotipado servindo de refrigério à tela quente. O gênero pode não ter acabado, mas definitivamente não é mais aquele que eu gostava de ver.
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No capítulo de hoje de “Selva de Pedra”, Simone, a mocinha que vem tentar a sorte na cidade grande e se casa com o mocinho Cristiano Vilhena, ex-tocador de bumbo na praça da cidadezinha do interior, vai capotar em preto-e-branco no Fusca ribanceira abaixo para reaparecer daqui a alguns dias de peruca loira dizendo se chamar Rosana Reis. Ninguém ira reconhecê-la, e essa trama, completamente inverossímil, me devolve à ingenuidade perdida.

Rodrigo Murat é escritor
Rodrigo Murat

Imagem: Divulgação

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