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SORRIA, VOCÊ ESTÁ SE FILMANDO

Por do sol

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SE FILMANDO

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SE FILMANDO

Sorria. Compartilhe o pôr-do-sol. Ver só não é suficiente: é preciso que você seja visto vendo. Se possível, abra os braços em V e colha a bola laranja entre as mãos em concha antes que ela desmilingue no horizonte. Seu público há de curtir: “Linda!” Troque a foto do perfil. Seu público há de comentar: “Lindo!” Tuite-se. Resuma-se em duzentos e oitenta caracteres. Sua vida dá um story? Que bom, relaxe e glose-se.

Nos meus primeiros tempos de rede social, quando eu ainda tinha ânimo de postar uma coisa ou outra, não conseguia me livrar da sensação incômoda de querer causar. Ficava na expectativa, imaginando que Fulano de Tal iria me achar incrível, e Beltrano de Tel, um idiota crasso. Uma vez, uma amiga, ao ler um desses meus posts de pé quebrado, me ligou para saber se estava tudo bem. Quase fez a pergunta-padrão do Face:

– No que você está pensando, Rodrigo?

No início da pandemia, apavorado com os atos desconexos do governo beligerante, cheguei a postar umas ideias de palanque que me levaram a ser compartilhado! No entanto, meu post mais recente – BRASIL DE HOJE: SERIA IBSEN SE NÃO FOSSE IONESCO – conseguiu o feito de não afetar ninguém e gerar zero like. Ou o algorítmico me deserdou de vez, ou meus amigos estavam ocupados com vacinas.

Hoje em dia, acho ótimo omitir o que “estou pensando” e ficar somente dando pitaco nas publicações dos outros. Já são tantas informações rolando, tanta gente querendo dizer tanta coisa, que eu acho um refrigério poder correr os olhos pelo feed só alimentando-o – do inglês, to feed – com pequenos grãos.

Talvez, num futuro atópico alguém invente uma rede social empática onde eu fale de você e você de mim: eu brincando de viver a sua vida, e você, a minha, para que possamos descansar de quem somos, tirando – numa alusão ao título do livro de Santiago Nazarian – “feriado de nós mesmos”. E aí quem sabe eu não possa enfim ter o seu gato, o seu cachorro ou o seu bebê, e postá-los na certeza do engajamento e da chuva de likes. E eu vou adorar que o computador me pergunte:

– No que você está pensando, Bianca?
____

A gente que escreve, conhece o texto de dentro, dos bastidores, e sabe da matéria precária da qual ele é construído: essa luta constante com a língua, com a gramática, com o estilo. Novamente, leio o jornal de domingo e babo com a língua, com a gramática e com o estilo da coluna de Antonio Prata. Semana passada, já a reproduzi quase por inteiro, não cometeria a desfaçatez de fazê-lo novamente, ainda que sob a égide do “feriado de mim mesmo”.

Quando jovem, ao descobrir Nelson Rodrigues e Clarice Lispector, ficava tão arrastado por seus estilos, que os copiava copiosamente. Adolescente, cheguei a escrever uma peça – “Um Anjo Caído do Céu” – que é totalmente Nelson (ou melhor, sub-Nelson, sem um décimo de sua verdade). A angústia da influência, segundo Harold Bloom, já me levou a vários desvarios. As palavras, nos dedos dos autores que admiramos, parecem correr como cachoeiras fluidas, ao passo que as nossas claudicam, esbarram em pedras e seixos o tempo todo, e resultam, quase sempre, em ribeirinhos rasos – para não escapar do pleonasmo e da cafonice metafórica que são exemplos típicos de tal precariedade.

Rodrigo Murat é escritor.
rodrigo murat

Imagem de Pete Linforth por Pixabay

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