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MARISA MONTE

Marisa Monte

MARISA MONTE

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Quando Marisa Monte despontou para o grande público no final dos anos 80, eu morava perto do Jazzmania – charmoso barzinho com palco em frente à praia de Ipanema, onde eu assisti Cássia Eller grávida e Cida Moreyra enfurecida. Tira esse cachimbo da boca, seu porco. Mas Marisa não deu pra ver. Da noite para o dia, seu nome correu de boca em boca e os ingressos se esgotaram. Mas quando ela foi para o palco italiano da Casa de Cultura Laura Alvim, também em frente à praia de Ipanema, lá estava eu a conferir in loco a nova Janes Joplin brasileira com uma pitada de Callas. A mídia adora comparações, e em Marisa respingaram várias, até que ela elidisse o passado e construísse sua persona inconteste.

No teatro, fazia um calor dos diabos. Era verão, e o ar-condicionado devia estar com defeito ou desligado para não atrapalhar a voz da artista. Além das músicas que fariam parte de seu primeiro álbum – MM –, a ser lançado depois desse bem-sucedido lote de apresentações, com Bem Que se Quis estourando nas rádios – lembro que Marisa cantou “Tudo Veludo”, elegante balada de Lobão pouco badalada. Quando você quer ser mais do que eu/querendo ser mais do que eu sou. Ali eu entendi que Marisa era uma caçadora de pérolas. Só impliquei com sua maneira rosnada de cantar, com seu gestual um tanto quanto artificioso, e saí do teatro com a sensação de não ter sido fisgado. Sempre fui fã de cantoras. Especializei-me nas raras. De São Paulo, quase todas. Ia nas lojas do Rio – sim, existiam lojas que vendiam LPs e K-7s – e perguntava:
– Tem o novo da Eliete Negreiros?
– Quem? Elizete Cardoso?

Todo esse estranhamento com Marisa se dissiparia com o lançamento de MAIS, seu segundo álbum, de 1991, onde ela uniu-se a alguns Titãs (Arnaldo Antunes, Nando Reis e Branco Mello) para revelar seu lado compositora e alçar-se ao patamar onde está até hoje. Seu canto tornou-se suave e beija eu, me beija, colou-se a meus ouvidos como chiclete bubbaloo.

Tornei-me fã. Comprava cada álbum assim que ele era lançado, decorava as letras e cantava junto. Na gravação do DVD “memórias, crônicas e declarações de amor”, de 2001, lá estava eu, imerso na multidão em pé de um Metropolitan lotado e transformado em pista, livre de mesas e cadeiras, recebendo Marisa, que entrava em cena vestida de noiva. Deixa eu dizer que te amo/deixa eu gostar de você. Parecia uma cerimônia religiosa, e era.

Quando Marisa lançou dois álbuns simultâneos – “Universo ao meu Redor” e “Infinito Particular” –, em 2006, eu estava em Buenos Aires e, ao entrar na livraria El Ateneo – belo edifício arquitetônico que um dia foi cinema –, fui surpreendido com a voz de Marisa no sistema de som. Eis o melhor e o pior de mim, sou pequenina e também gigante, a água é potável, daqui você pode beber. Me senti brasileiro.

Um dia, estava andando de bicicleta na orla e Marisa me veio à cabeça. Instantes depois, quem passa no calçadão do Leblon empurrando um carrinho de bebê? Coincidência ou atração magnética? Fim de tarde apenas. Nada que o mistério das coisas não explique.

Agora que Marisa lança novo álbum – PORTAS – é como se o Brasil começasse a sair do buraco. É claro que é uma força de expressão, um supra sumo de vontade de querer que a realidade coincida com o que vai em meu interior. Mas quero, sim, acreditar, que esses tempos sombrios estão indo embora. Que a pandemia será vencida, que o entulho político será removido, e que, em breve, será possível respirar. Há um vilarejo ali, onde sopra um vento bom, na varanda, quem descansa, vê o horizonte deitar no chão. Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar.

Marisa veio para pedir calma. Marisa saiu de seu silêncio habitual para avisar que tudo – isto é, a parte ruim do tudo – vai passar.
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Músicas citadas em itálico: “Surabaya Johnny” (Kurt Weill e Bertold Brecht), “Tudo Veludo” (Lobão e Bernardo Vilhena), “Beija Eu” (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Arto Lindsey), “Amor I Love You” (Marisa Monte e Carlinhos Brown), “Infinito Particular” (Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes), “Vilarejo” (Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Pedro Baby)

Texto: Rodrigo Murat é escritor

rodrigo murat

Imagem: Leo Aversa

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