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ITINERÁRIO PARA O INFINITO

Infinito

ITINERÁRIO PARA O INFINITO

Há muitas coincidências temáticas aproximando os documentários “O Garoto Mais Bonito Do Mundo”, de Kristina Lindström e Kristian Petri, e “Jane Por Charlotte”, de Charlotte Gainsbourg, exibidos na Mostra de Cinema de São Paulo.

“O Garoto Mais Bonito do Mundo” refaz a trajetória de vida do ator sueco Björn Andrésen, que, aos 15 anos de idade, foi escolhido por Luchino Visconti para ser a cereja do bolo de seu “Morte em Veneza”, baseado na obra de Thomas Mann. De fato, a partir do sucesso do filme, que estreou em Londres, em 1971, com direito à Rainha Elizabeth e à princesa Anne na plateia, Björn tornou-se a cereja de muitos bolos, cobiçado mundo afora, e chegando a trabalhar no Japão, onde seu rosto foi alçado a ideal de beleza andrógina.

Não foi fácil conseguir investidores para o filme que conta a paixão platônica de um compositor solitário sessentão vivido pelo ator Dirk Bogarde pelo jovem Tadzio, em férias com a família no famoso balneário europeu ameaçado por uma epidemia de cólera. Visconti chegou a ouvir de um produtor a sugestão de escalar uma menina para o papel, mas o diretor italiano não queria uma “Tadzia”. Até porque, isso seria ferir de morte o espírito da novela de Mann. No documentário, é possível ver imagens dos testes da equipe com os jovens rapazes candidatos ao papel e cenas das filmagens em Veneza.

Em “Jane Por Charlotte”, a atriz, cantora e compositora Charlotte Gainsbourg mira a câmera para Jane Birkin, sua mãe, que também conheceu o sucesso por ser bela. É um filme bastante íntimo, quase um Super-8 caseiro, onde Jane revela seu desconforto com a passagem do tempo. Dez anos mais velha que Björn, a talentosa atriz e cantora diz evitar os espelhos por não reconhecer-se neles. Tanto Björn, quanto Jane perderam um filho; tanto Jane, quanto Björn carregam a culpa de não terem sido pais mais presentes.

Na última cena de “Jane por Charlotte”, Jane percorre um areal deserto protegendo-se do vento com as mãos, enquanto, em narração off, Charlotte declara seu amor e admiração, supondo como será sua vida depois que ela se for. Mãe e filha então se encontram e se abraçam.

Na última cena de “O Garoto Mais Bonito do Mundo”, Björn volta à praia de “Morte em Veneza” e como que refaz a última sequência do filme, quando o solitário compositor observa o jovem Tadzio entrar no mar e chapinhar os pés na água. É quase um remake, com o Björn de hoje “olhando” o jovem que outrora foi – o velho apaixonado pelo novo – enquanto em off é narrado o trecho de uma carta deixada por sua mãe antes de morrer. O mar, infinito, falsamente tolhido pela linha do horizonte, expande as existências de Björn e de Jane para além do que elas poderiam ter sido.

Há muito de culpa, tristeza, saudade e remorso na vida de cada um de nós – é o que os documentários identificam. Mas há um orgulho no olhar final de Björn e uma aceitação de tudo no abraço caloroso de Jane e Charlotte que redimem todo pessimismo.

O remorso deveria ter remorso de si, posto que não é possível se voltar atrás e corrigir o itinerário. A vida é uma viagem de ida. Cada dia, um lugar novo, pessoas, paisagens, tramas se refazendo. Estamos em curso. Avancemos.
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Os documentários sobre Björn e Jane estão disponíveis online no site 45.mostra.org até 4 de novembro.

Rodrigo Murat é escritor
Rodrigo Murat

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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