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A PROPÓSITO…

A PROPÓSITO…

Do Amor nos tempos do Cólera?

Querido amigo,

É um começo de fim de mês, e não qualquer um, mais outro como os que se passaram, diga-se de passagem. A cada dia, um dia por vez. Uma dessas redes sociais me lembra que existem aniversários, mas desconsidero, não pelas pessoas, é que este ano não carece parabéns.

Lembro dos anos em que trabalhamos juntos, acreditando nos ideais para os quais tanto nos dedicamos, sabe, o Brasil estava diferente nessa época.

O fato é que ainda patinamos sobre os mesmos temas há séculos, racismo, discriminação, preconceito, corrupção, usurpação, muito além da pobreza, a miséria, e esse colonialismo a se perpetuar. Minorados ou piorados os problemas, a nossa dança concedida tem sido essa. Um pouco menos pior é quase uma dádiva…

Não é apenas que somos frágeis, é que às vezes o ao redor nos debilita mais ainda. Almas sebosas nos cercam mais do que nunca, é uma barbaridade; semi-pessoas louvando a tortura, a dilapidação de setores estratégicos, direitos humanos e trabalhistas, o massacre de matas, do meio ambiente, da seguida e continuada violência contra os povos indígenas, de negros em qualquer idade, da maioria, a maioria dos brasileiros sangrando e virando carne moída.

Então fico pensando no que nos une neste país. Pensei em liberdade, sobre a liberdade e ser livre.

Até hoje imploramos por alforria, meu amigo.

O que queremos e queríamos e com o quê ainda sonhamos?

Sonha-se com casa própria, trabalhar, fonte de renda (emprego e trabalho são distintos, sabemos), comer, ler, estudar, assistir filmes, passear, cantar, dançar, rir e sorrir, cuidar, adorar e amar, viver plenamente.

Mas agora tem sabão em pó contra o corona vírus, até desinfetante especializado contra esse vírus que ainda chamam de novo, preços sendo remarcados de dias em dias, e muito álcool em gel e tal. Então o que há de novo no front?

A vontade de ser livre não passa, não sai com sabão nem com álcool ou toda a assepsia possível.

O medo nos circunda e nos assola, seja pelo vírus da doença ou pelo vírus do fascismo. A dita é mais do que dura!
Daí fui em busca de algum frescor, alguma poesia possível, e logo veio o Caio Fernando Abreu. Poxa, um ser humano também abalado por um vírus. Escolhi alguns trechos que podem, quem sabe, nos apoiar nessa conversa…

É uma crônica para O Estado de S. Paulo, de 1 de maio de 1994, quando ele estava em Paris.

‘De laços, de seios, sábados e tormentas’.

‘Quero voltar para casa, ver TV até a imbecilidade, dormir sem sonhos. Alguma coisa me falta, desesperadamente.’

‘Estou perdido. Atravesso pontes, viro esquinas medievais. O dia é cinza e frio como as cinzas dos borralhos. Quero qualquer coisa que não tenho agora, um país, uma língua, um amor, nesta cidade estrangeira quero me jogar no Sena, me embriagar alucinadamente. Então eu paro e olho a rua, a casa em frente.

Quai de Bourbon, número 19. Uma placa diz que ali viveu Camille Claudel. Mais abaixo esta frase dela — ‘Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente’ (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — escrita exatamente há 108 anos. Mas já vivi isso, penso, por que outra vez?’

E novamente relembro de nossos anos em parceria visionária, o trabalho para o Ministério da Cultura (também extinto), nossos anseios, nossas esperanças de um Brasil possível…

Não nos enforcaremos, é certo, apesar do laço que tanto nos aperta as gargantas e a vida, não vamos nos entregar, resistiremos.

Agora é uma quarta-feira, meu bem, de um ano quase não acontecido e sendo assim desmilinguido.

Beijo enorme, saudades,

P.

(Carta para Marcus Plessmann, Brasil, 27 de agosto de 2020.)

Texto da colunista: Palena Duran Alves de Lima

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