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A GRANDE VERDADE

A GRANDE VERDADE

A GRANDE VERDADE

Há textos que possibilitam uma chave de compreensão do mundo como se de súbito ele tivesse sido aberto e revelado aos olhos. A crônica de Antonio Prata publicada na Folha de São Paulo de 04/07/2021, deu-me essa sensação ao sintetizar, em alguns lúcidos caracteres, o muito que se vem tentando discutir. Peço, então, licença para reproduzi-la, se não em sua totalidade, ao menos em seus parágrafos essenciais:

Não adianta virem os Steven Pinkers da vida mostrar que o capitalismo melhorou as condições dos pobres nos últimos 250 anos. O motoboy que se arrisca todo dia sob sol e chuva para levar refeições valendo metade do seu salário não quer saber dos últimos 250 anos, quer saber do mês seguinte. Quer ter um trabalho que curta e seja bem pago, quer ser olhado com desejo pela moça bonita do Shopping Higienópolis e não com desconfiança pelos frequentadores e seguranças. (…)

As pessoas não são burras. O motoboy olha pela fresta da porta na casa chique e sabe que é o mais próximo que vai chegar daquela sala, embora o discurso reinante seja o de que se ele se esforçar bastante, prosperará. Se isso não é fake news, não sei o que é.

O bolsonarismo e o trumpismo são infecções oportunistas; alastram-se porque o sistema imunológico da democracia foi minado por ela mesma. Essa picaretagem de prometer aos pobres propaganda de margarina e entregar gás lacrimogêneo aguenta até certo ponto. Quando a mentira cai de madura, a dissonância cognitiva deixa na cabeça dos desiludidos um rombo pelo qual entra todo tipo de terraplanismo.

Não vamos vencer o fascismo fazendo jogral com artistas no Facebook nem escrevendo colunas argumentando que a democracia é a melhor forma de governo – tenho lugar de fala, de jogral e de coluna neste assunto. A melhor saída, a única eficaz e justa, é construirmos uma democracia que seja radicalmente inclusiva. Do contrário, na hora de escolher entre ser engambelado pela conversa para boi dormir ou se tornar gado no estouro da boiada, as pessoas seguirão optando pelo segundo. Ou o Brasil paga o que deve à maioria dos brasileiros ou em breve não serão de polegares e indicadores as armas apontadas pela turba enfurecida. Pensando melhor: já não são.

Prata chamou seu texto de “A Grande Mentira” para dizer uma verdade imensa. Acredito ser este o papel do escritor: denunciar, alardear, tirar o véu, a máscara, escancarar o óbvio eclipsado pelo cotidiano impreciso. É possível que cheguemos a um tempo em que todas as verdades já tenham sido ditas, e, mesmo assim, não saibamos o que fazer com elas. É possível até que esse tempo já tenha vindo, ou sempre tenha existido. Desde o primeiro dia; desde Adão no éden as regras do jogo já estavam dadas, mesmo assim não foi possível interrompê-lo. Será nossa natureza animal que o impede? Estamos disfarçados com esses vernizes civilizatórios todos, mas no fundo nos movimentando como onças devorando corças?

O mendigo roto que se aproxima do cidadão bem vestido, pede um trocado e tem de resposta o falso singelo “ô amigo, me desculpe, hoje eu estou sem”, não costuma se revoltar – conhece já o teatro, seu papel, suas falas. Mas será que esse acúmulo de falsos singelos não estará nos cozinhando em fogo brando até o apocalipse?

Já não deu tempo de se resolver os problema da fome e da desigualdade? Já não houve séculos bastantes para que fosse possível equilibrar nos pratos da balança ricos e pobres em benefício de todos? Uma família dormindo na calçada em frente a nosso prédio com grade, câmera e alarme tem o que a ver conosco? O que exatamente devemos fazer para sentir que estamos fazendo alguma coisa?

Desculpem tantas perguntas clichês de cunho demagógico. Melhor ficarmos com a resposta inteligente de Antonio Prata.

Rodrigo Murat é escritor.
rodrigo murat
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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