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MINHA VIDA É UMA PEÇA

Paulo Gustavo

MINHA VIDA É UMA PEÇA

MINHA VIDA É UMA PEÇA

Minha ligação com o teatro vem de outras encarnações. Eu talvez tenha sido William Shakespeare, Sarah Bernhardt, um contrarregra alemão do Berliner Ensemble, ou um autor português formidavelmente desconsagrado de nome João Pires da Mota e Silva.
Digo isso porque aos quatro anos de idade minha mãe me matriculou no colégio de freiras onde ela mesma fez sua vida acadêmica – primeiro como aluna, depois como professora. Como eu não tinha ainda a malícia de ler o mundo como o grande teatro que ele é, passei três dias chorando copiosamente, e só parei quando uma irmã, sem saber mais o que fazer comigo, teve a bendita ideia de me levar para conhecer o auditório. Diante do palco, emudeci. É claro que eu não me lembro de nada disso, mas como a história entrou para o anedotário de família, então é como se fosse uma memória implantada.
Vinte anos depois, tive a oportunidade de ver, pela primeira vez, um texto meu encenado por um diretor argentino radicado no Brasil – na verdade uma adaptação de um livro infantil de Belinha Elkind, “Tuti e a sua Turma”. Lembro da sensação prazerosa de assistir ao público assistindo. O público: justificativa cabal de todo o esforço. O público é o último elo da cadeia criativa de um espetáculo, é quando todos os elos anteriores são postos à prova, e é por isso que o teatro online me parece tão postiço.
Achava que seria crítico teatral, pois o tempo passava e eu não arredava pé da plateia. Até que um dia, Naum Alves de Souza, com quem fiz um curso de dramaturgia, e que depois me convidou para ser seu assistente de direção na montagem de “Lulu”, de Frank Wedekind, me mandou um cartão de boas-festas com os votos: “No ano que vem seja Nádia Comaneci, mas não seja crítico”.
Resolvi seguir a dica: dei um salto olímpico e montei – vinte anos depois! – minha primeira peça escrita, dirigida e produzida por mim. Não foi um sucesso artístico, mas a realização – feita em parceria com jovens atores recém-formados – serviu para testar meus limites e me projetar para novos trabalhos.
Ator, eu jamais seria. Não que eu não os admire, mas é que sou profundamente inapto para sair de mim e interpretar um outro. Até para fazer meu próprio papel às vezes me atrapalho. Em enterros, por exemplo. Fico sempre muito impressionado como todos conseguem dizer frases de difícil embocadura como “meus pêsames” ou “meus sentimentos” sem soarem canastrões. Prefiro não dizer nada, mas também não acho que minha máscara facial ajude a expressar o não-dito.
Em “Lulu”, eu era obrigado a subir no palco durante os ensaios para fazer o papel da Condessa – a atriz que o interpretava estava numa novela de sucesso da Globo e sistematicamente faltava. Os atores tinham de ter muita paciência comigo, pois cada frase que eu dizia era como um tijolo atirado ao chão. Pra piorar, tinha sempre alguém da equipe na plateia assistindo, e isso me deixava ainda mais nervoso. Eu tinha vinte e dois e virava um menino de oito.
Tem pessoas que precisam de muito menos tempo para mostrar talento, chegar ao topo e por lá permanecer. Paulo Gustavo, que semana passada nos deixou, teve essa espécie de sucesso condensado, de cinquenta anos em cinco, assim como Cazuza, Rimbaud, Noel, Castro, Gonçalves, Radiguet e outros gênios da velocidade.
Assisti a “Minha Mãe É Uma Peça”, a peça, na sua segunda temporada no teatro Leblon e ri do início ao fim, emendando um sarcasmo no outro. Voltei para repetir a experiência e rir tudo de novo. Paulo Gustavo conseguiu o feito – raríssimo – de fazer migrar do palco para a casa e para o imaginário do grande público disperso sua adorável mãe arquetípica.
Deixo aqui registrado meus parabéns a este grande artista que soube transformar cada minuto de sua vida em dez.

Texto: Rodrigo Murat é escritor

rodrigo murat

Imagem: Victor Pollak/Divulgação/TV Globo

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