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PETRA & PETER

Dois amigos saem da sessão de cinema do Festival Varilux:
– Credo, que horror!
– Você não gostou?
– Claro que não. Você gostou?
– Claro que sim. Você não está vendo que eu estou aqui me debulhando em lágrimas?
– Pensei que fossem lágrimas de crocodilo. Eu também estou me debulhando: só que de ódio. Como é que o cara pega e estraga um clássico do porte de “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”?
– Você e seus purismos. Ninguém pode tocar nas artes sacras.
– Não é purismo. Eu só não entendo porque o cara quis estragar um Fassbinder. Ele podia muito bem ter contato a mesma história – a história de um amor fracassado do ponto de vista de dois homens – sem precisar recorrer a uma outra obra que é inegavelmente superior ao que ele é capaz de fazer. Eu já vi outros filmes do Ozon. O cara é bom, só que é francês. O cinema dele cheira a perfume, enquanto o cinema do Fassbinder é carne humana pura. Não tem colônia. Não tem patchouli. Se não fosse isso, essa mania de remake, talvez eu até tivesse gostado. O filme tem qualidades. Os diálogos são bons – claro que sem 1/10 da profundidade dos diálogos do original, mas ok, nem sempre se pode ser Deus. Os atores são bons. Tudo bem que a Isabelle Adjani, depois de tanta plástica, você não consegue saber se está com 17 ou 77. Em compensação, ver a Hanna Schygulla com a cara natural que o tempo lhe deu é um alívio e uma esperança de que nem tudo vai acabar em botox.
– Cara, o filme é maravilhoso. Os atores são incríveis, a mise-en-scène. Você não gostou do Karl?
– Gostei, só que é um dândi afetado, caricato. Mistura de Jacques Tati com Vera Verão. A Marlene, na versão do Fassbinder, é um personagem cheio de profundidade, verdade, dor. No caso do Ozon, é tudo um grande comercial da Gucci.
– Você está sendo radical.
– Cara, o cinema do Fassbinder é ritualístico, hierático. Os filmes dele nunca esquecem que são filmes, filmes com os pés fincados no barro do teatro, no artificialismo plástico, revelando o total controle do autor sobre a linguagem. Aí vem o Ozon e gourmetiza tudo, transforma a Petra em Peter e o trio de personagens femininos principais em homens. Sabe qual é o problema? O cara adaptou o corpo, mas esqueceu de levar a alma do filme junto. A paixão do Peter pelo jovem mocinho deslumbrado com a fama fica parecendo um amor de butique. Só falta um vapor pra emular a sauna gay. Já no caso da Petra, é pura dor a paixão que ela sente pela Karin. Dor petrificada. As lágrimas da Petra são amargas reais, ao passo que as lágrimas do Peter foram adoçadas com aspartame. No Peter, o sofrimento é da boca pra fora e o protagonista chora como um bufão de circo, enquanto na Petra é tudo pra dentro. Arte centrípeta versus arte centrífuga. Eu fico pensando como terá sido a montagem com a Fernanda. Será que eles conseguiram manter esse grau de rigor alemão ou latinizaram e macaquearam tudo?
– Não sei, eu não vi. Quem viu foi você.
– Sim, mas faz séculos. Eu tinha nove anos.
– Nove anos de idade e os teus pais te levaram pra ver Fassbinder?
– Me levaram pra ver a Fernanda Montenegro e a Renata Sorrah. Eles gostavam delas das novelas e queriam ver elas se beijando ao vivo.
– Sei. Teus pais também gourmetizam arte.
– Eu só lembro das costas da Fernanda. Ela interpretava muito com as costas. Usava um vestido decotado que deixava as vértebras à mostra. E as vértebras dela moviam-se como caracóis. Talvez fosse uma tentativa de mimetizar o Fassbinder, já que no filme dele tudo se move lento e retrógrado. E ele não tenta ser agradável. Tem aquela cena em que a Marlene fica datilografando por vinte minutos enquanto a Petra e a Karin conversam, como se os diálogos delas estivessem sendo escritos à medida em que são ditos e fica aquele som de máquina no ouvido do espectador. Chato pra cacete e maravilhoso.
– Sei lá, eu só sei que eu estou muito mexido. Praticamente em frangalhos.
– Claro, você se identificou com o amor tolo e superficial dos caras. Já as mulheres amam muito mais pro fundo.
– Você generaliza tudo: cinema francês, cinema alemão, homem, mulher. Pensa tudo em bloco.
– O Ozon não tinha nada que ter se colocado à sombra de um gigante. É como um músico meia-boca pegar a “Construção” do Chico e colocar uns versos de pé-quebrado tipo “Amou daquela vez como quem posta um vídeo/Amou daquela vez como quem curte um storie”.
– Tudo bem, mas agora você deixa eu curtir o fato de eu ter me emocionado com o filme?
– Claro. Eu vou pra minha casa. Você vai pra sua. Só não se mata. Lembra que amanhã passa “Esperando Bojangles” e a gente já está com o ingresso.
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Rainer Werner Fassbinder morreu há 40 anos, em 1982, aos 37 anos de idade. François Ozon é um cineasta francês.

Rodrigo Murat é escritor

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Agência Difusão

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