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O SENTIDO DAS MÁSCARAS

O SENTIDO DAS MÁSCARAS

A vida nos dá poucas chances de demonstração de espírito cívico e, quando dá, parte da população ignora. É o caso das máscaras. Sob o argumento de que usá-las é sucumbir a uma paranoia coletiva incensada pela Grande Mídia Mórbida, os caras-de-pau mantêm orgulhosos o focinho de fora como se não fizessem parte do sistema. Ok, passado atlético, presente aético, futuro hipotético, tudo isso eu já entendi, mas e o outro? Será que o outro que nos cruza randomicamente o caminho não é merecedor de um mínimo gesto de atenção e cuidado?

Eu uso máscara para me proteger do inimigo invisível e para poder “usar” o outro tão visível. Usá-lo como pedestre, como cidadão, como colega de cena no elevador, no banco, no mercado, na farmácia, e onde mais eu entender levar os meus eflúvios. E é claro que eu não consigo passar pelo indivíduo sem máscara sem achá-lo um despreparado para a vida em sociedade. Pela minha rua circula um casal cinquentão de mão dada invariavelmente com as bocas e os narizes nus – ela de shortinho “ainda tô podendo”, ele de torso magnífico explodindo da regata branca. São imunes ao vírus, mas não ao ego. Se a máscara fosse só para proteger o outro, aí é que ninguém usava. É difícil demonstrar espírito cívico. A maioria está adestrada para viver em bolhas como soldados tensos demarcando território contra a aproximação do inimigo.

Motoristas de aplicativo que usam divisória de plástico entre o banco da frente e o de trás me contam que perdem ponto nas avaliações dos passageiros que se sentem discriminados. Eu mesmo, na primeira vez em que entrei num veículo com esse tipo de divisória, também fui levado a tal pensamento errôneo, mas, por sorte, o corrigi: e se o motorista estiver preocupado comigo? E se o motorista estiver pensando em me proteger? É sempre bom reavaliar as primeiras impressões quase sempre errôneas e grosseiras que extraímos dos fatos.

E agora a notícia que nos chega e que em breve farfalhará em todas as mídias impressas e digitais é a dos fura-fila. Vacina pouca, minha injeção primeiro.

Há que se ter paciência – inclusive e sobremaneira com os impacientes incivis. Estamos todos no mesmo barco e atirá-los ao mar só faria com que nos tornássemos um deles. A César o que é de Milton.

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“O Sentido das Máscaras” é também o título do livro escrito por meu avô Thomas Murat e publicado postumamente em 1939. Filho de Luiz Murat (1861-1929), fundador da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, Thomas passou ileso pela gripe espanhola, mas não resistiu à pandemia íntima e particular que o acompanhava desde verdes anos.

Rodrigo Murat é Escritor

Agência Difusão

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