Recentemente, no último South by Southwest – festival norte-americano de inovação e tecnologia – o relato da psicoterapeuta belga Esther Perel causou espanto. Ela contou que, após o término de uma relação amorosa, um sujeito usou episódios do podcast “Where Should We Begin”, apresentado por ela, para continuar o relacionamento via chatbot. Já que a Perel de carne e osso não estava mais disponível, a da Inteligência Artificial a substituiu, cumprindo o papel com mais excelência até, posto estar ao alcance vinte e quatro horas do dia, pelo mero recurso de um clique.
Estamos caminhando para uma esterilização das relações humanas?
Em entrevista ao jornal “Valor”, em matéria sobre o tema da qual extraio essas informações, o professor universitário e pesquisador do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, Diogo Cortiz, disse: “Você começa a se relacionar com um artefato tecnológico que realiza todos os seus desejos, que nunca te dá uma invertida, que
nunca te diz não. A tecnologia não tem vontades. Nós, humanos, é que colocamos a máquina ali, porque a gente não conseguiu se organizar como sociedade para que a solidão não fosse um grande problema no mundo.”
Segundo o estudo “Global Perceptions of the Impact of Covid-19”, da consultoria Ipsos, um terço dos adultos (33%) no mundo se sentem solitários. No Brasil, 50% dos que responderam à pesquisa, afirmam sentir solidão.
Alexa, traga-me alguém que me ame incondicionalmente.
A plataforma Replika oferece a criação, via Inteligência Artificial, de uma companhia digital ao gosto do freguês. O usuário decide a natureza da relação (se romântica ou amical), assim como as características físicas e a personalidade do avatar.
Segundo o biólogo Rob Brooks, da Universidade de New South Wales, na Austrália, “há uma epidemia de solidão.”
A pergunta que paira é: seriam os artefatos tecnológicos os responsáveis pela solidão contemporânea ou a solidão é algo inerente à condição humana em todos os tempos?
Alexa, traga-me um geminiano não-fumante de centro-direita que goste de viajar, de sushi e pagode.
Enquanto isso, novos aplicativos de namoro vão surgindo para contemplar nichos específicos. Há o Veggly, para veganos e veganas; o Lefty, para amantes de esquerda, e o Denga Love, para candidatos a esponsais afrodescentes, que promete, como mote, “amor negro, carinho e chamego.”
Qualquer maneira de amor vale a pena?
Se “Paula e Bebeto”, a canção, fosse composta hoje pelos gênios de Milton Nascimento e Caetano Veloso, talvez incluísse o verso em negrito: “Eles partiram por outros assuntos, muitos/mas no meu canto estarão sempre juntos/ainda que via modem”.
A internet já me trouxe um amor, que transformou-se num relacionamento duradouro de nove anos, mas também algum dissabor e personagens curiosos, para não dizer intrigantes. É engraçado perceber que o discurso amoroso vigente está colado à maioria dos que acessam esse atalho digital de aproximação, e que muitas vezes serve como
briefing de apresentação já no primeiro contato.
“Olá, eu me chamo Fulano e eu quero viver uma relação.”
Que a maioria queira viver uma relação é o sabido. O inusitado é isso ser dito quase como um lema, uma bandeira de trabalho. Às vezes, soa como uma entrevista de emprego.
“Eu falo inglês, tenho pós em Tecnologia da Informática e gosto de dormir de conchinha.”
E há os que dizem “estou com saudades” um dia depois de conhecer o objeto de desejo.
Saudades de quem, cara-pálida? Só se for de você mesmo apaixonado por alguém.
O namoro vem num pacote pronto, suscitando, por vezes, D.R.s sem que haja propriamente uma R.
Antes dos aplicativos, lá pelos anos 90 do século findo, existiam as salas de bate-papo que a mim – erroneamente, por certo – me pareciam sites de pré-pegação voltados para o público masculino. Era raro eu saber de alguma mulher que os usasse. Hoje, vejo que se tornou uma fórmula comum. A filha jovem de uma amiga – com todos os requisitos para conhecer alguém “espontaneamente”, usa o Tinder como quem vai à boate. Que bom. Os aplicativos saíram do armário e qualquer maneira de amor vale amar.
Eu confesso que sinto falta do prólogo que antecede a relação propriamente dita. Aquele momento meio lusco-fusco, onde ainda não se sabe se o que rola é namoro ou amizade, e, quando finalmente o namoro vence, alguma intimidade prévia já pavimentou o caminho. Agora, o chão tem que vir pronto. E é só deitar e rolar.
Alexa, traga-me alguém que não ronque.
Rodrigo Murat é escritor
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